O que ela quer da gente é coragem

Via Agência Pública
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

O trecho de Guimarães Rosa foi citado na posse da primeira mulher a assumir a presidência do Brasil, em 2011. Presa e torturada pela ditadura, ela também havia enfrentado um tratamento de câncer durante a campanha, e sabia o risco de assumir a presidência sendo chamada de “poste” de Lula. E pagaria o preço, sem jamais lhe faltar a qualidade destacada pelo escritor em “Grandes Sertões”.

Nessas eleições, é preciso lembrar do impeachment de Dilma – e não apenas porque vivemos a continuidade desse processo. A frase emblemática de Bolsonaro na votação do impeachment também ganha atualidade. “Pelo coronel Carlos Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, disse o então deputado.

Bolsonaro não queria apenas homenagear o primeiro agente da ditadura declarado oficialmente torturador, em 2008. Ele apelou para o “pavor” que inspiram os militares do golpe, cravando o medo como “afeto político central” de sua campanha, nas palavrascerteiras do intelectual Vladimir Safatle.

Às vésperas das eleições, o medo é quase palpável. Está nos depoimentos pungentes das pessoas que sofreram com torturas, mortes e desaparecimentos pelas mãos da ditadura. Está nos relatos das pessoas agredidas depois do primeiro turno das eleições, como mostrou o levantamento da Pública. Chega a doer na mensagem da amiga gay que receia sair de casa por se sentir alvo do ódio insuflado por pastores e políticos. Envergonha na tibieza dos ministros do TSE, que sequer conseguiram evitar que os boatos sobre as urnas turvassem as eleições, já sombrias. Aparece na tentativa de intimidação aos jornalistas, cada vez mais implacável, exposta no assédio sofrido pela jornalista que investigou o patrocínio da avalanche de fake news que recaiu sobre uma sociedade acuada, mais disposta a perseguir do que a compreender.

Uma linha na reportagem da Folha sobre o caso da repórter ameaçada nos dá, porém, uma preciosa indicação de como enfrentar o medo seja qual for o cenário pós-eleitoral. “Patrícia Campos Mello permanece na apuração do caso”, diz o jornal. Nós agradecemos, Patrícia.

Normalizar a mentira, o discurso pró-tortura, a ditadura, a homofobia, o racismo, e o machismo é mais grave – e duradouro – do que qualquer resultado eleitoral.

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública

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